Fundação Champalimaud dá um milhão à ciência da retina

Publicado Por: Sofia Jesus - 15• Set•2012

Seis cientistas americanos foram galardoados em Lisboa com o Prémio de Visão António Champalimaud 2012, no valor de um milhão de euros. O prémio é considerado o maior do mundo na área da visão.

Seis cientistas americanos receberam ontem das mãos de Cavaco Silva e de Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud, o Prémio de Visão António Champalimaud 2012, pelas suas abordagens inovadoras na visualização da retina em pessoas saudáveis e doentes.

A cerimónia decorreu no auditório do Centro de Investigação Champalimaud, em Lisboa, e o prémio de um milhão de euros é considerado o maior do mundo na área da visão.

David Williams (Universidade de Rochester), na Ótica Adaptativa, e uma equipa constituída por James Fujimoto (MIT), David Huang (Oregon Health and Science University), Carmen Puliafito (Universidade da Califórnia do Sul), Joel Schuman (Universidade de Pittsburg) e Eric Swanson (NinePoint Medical), na Tomografia de Coerência Ótica, desenvolveram tecnologias para observar com elevada resolução a estrutura e as propriedades da retina, o que vai levar a novas descobertas científicas e a melhores cuidados de saúde.

O prémio é atribuído anualmente desde 2007 às organizações ou grupos que se distinguiram por contributos excecionais para a compreensão dos mecanismos da visão – nos anos pares – ou no combate à cegueira nos países em desenvolvimento – nos anos ímpares.

Desvendar a estrutura da retina

 

As novas tecnologias premiadas permitem o estudo de questões decisivas relacionadas com a estrutura da retina e a descoberta de mecanismos envolvidos nas doenças dos olhos, levando também a uma melhor monitorização de resultados clínicos.

A primeira chama-se Tomografia de Coerência Ótica (OCT, do inglês Optical Coherence Tomography) e visualiza com grande resolução secções transversais da estrutura interna dos tecidos vivos. A OCT é uma tecnologia de diagnóstico em que não é necessário o contacto físico com os instrumentos usados, garantindo maior conforto ao doente e maior facilidade de uso ao médico.

Foi desenvolvida conjugando métodos de ótica (interferometria de baixa coerência) desenvolvidos pelos investigadores americanos James Fujimoto e Eric Swanson, com a sua aplicação na clínica ocular por David Huang, Carmen Puliafito e Joel Schuman.

Antes do seu uso, os métodos de imagiologia da retina eram invasivos, envolvendo a injeção de compostos químicos no olho que podiam desencadear reações alérgicas.

Ao permitir a visualização da retina humana com uma grande resolução e de forma não invasiva, a nova tecnologia é hoje fundamental no diagnóstico e tratamento clínico da degeneração macular, retinopatia diabética e glaucoma, e no desenvolvimento e avaliação de tratamentos para estas (e outras) doenças da retina. As três doenças são as principais causas da diminuição da visão e da cegueira nos países desenvolvidos.

James Fujimoto: o sucesso da investigação interdisciplinar

 

Em declarações ao Expresso, James Fujimoto afirma que o grupo de cinco investigadores que recebeu o Prémio de Visão devido ao desenvolvimento da OCT, “está especialmente grato por o júri ter escolhido uma equipa que inclui cientistas, engenheiros e clínicos”.

Com efeito, essa escolha “destaca a importância do trabalho interdisciplinar na investigação médica e nos cuidados de saúde, e mostra que a abordagem interdisciplinar pode ser bem sucedida e ter um impacto na ciência e na medicina”.

A equipa começou por desenvolver a OCT nos anos de 1990 e hoje a tecnologia é considerada “um avanço revolucionário na oftalmologia clínica e na investigação da visão”. Por isso, já são feitas 40 milhões de aplicações oftálmicas por ano em todo o mundo com base na OCT.

Fujimoto salienta as vantagens da nova tecnologia, que gera imagens transversais e em 3D “que fornecem informação compreensiva sobre a patologia da retina que não pode se obtida por qualquer outra técnica”. Por isso, a OCT “pode detetar as doenças dos olhos mais cedo do que todas as outras tecnologias, permitindo o tratamento e a prevenção da perda de visão”.

Da astronomia para a oftalmologia

 

A segunda abordagem inovadora premiada pela Fundação Champalimaud baseia-se nas tecnologias de ótica adaptativa (AO, do inglês Adaptive Optics), inicialmente desenvolvidas por astrónomos.

David Williams, investigador da Universidade de Rochester (Nova Iorque), criou uma aplicação oftalmológica da AO que permite ver com grande nitidez células da retina. Graças à correção de imperfeições óticas naturais que ocorrem no cristalino e córnea, possibilita a visualização e quantificação dos cones fotorrecetores da retina.

“Esta invenção representa um avanço notável na nossa capacidade de avaliar os componentes celulares da retina, até aqui um fator limitante na investigação e na clínica oftalmológica”, destaca um comunicado da Fundação Champalimaud sobre os prémios, acrescentando que “a visualização de células-cone individuais ao longo de semanas, meses e anos está a levar a novas descobertas sobre as alterações da retina causadas por envelhecimento e doença”.

David Williams: restaurar a visão

 

Os métodos e tecnologias desenvolvidos pela equipa de David Williams têm duas grandes aplicações: medir e corrigir aberrações na retina, restaurando a visão através do uso de cirurgia laser refrativa obter pela primeira vez imagens da retina com uma resolução que permite identificar células fotorrecetoras individuais, a forma como estão organizadas e a sua quantificação no olho humano, abrindo caminho a uma melhor deteção e à descoberta de novos tratamentos de doenças da retina.

David Williams explica ao Expresso que a tecnologia desenvolvida “permite medidas automáticas e mais apuradas dos defeitos ópticos dos olhos que antes não eram possíveis”. E quando este avanço é combinado com um método para corrigir estes defeitos ópticos, “somos capazes de produzir ao mesmo tempo melhor visão e melhores imagens do interior dos olhos”.

Em particular, quando a Ótica Adaptativa “é incorporada numa câmara para tirar fotos da retina dentro dos olhos, converte essa câmara num microscópio onde as células mais pequenas da retina podem ser vistas de forma rotineira”.

A capacidade de medir automaticamente e de uma forma tão precisa todos os defeitos ópticos dos olhos de um paciente “transformou o campo da correção da visão”, sublinha Williams. Com efeito, “esta tecnologia é usada na cirurgia laser (Lasik) e de forma rotineira no desenvolvimento de todos os tipos de aplicações para a correcção da visão, desde as lentes de contacto às lentes intra-oculares e aos óculos”.

Ao mesmo tempo, a alta resolução da Ótica Adaptativa “pode potencialmente permitir diagnósticos precoces das doenças da retina e acelerar o desenvolvimento de novas terapias”.

Fonte expresso Por Virgílio Azevedo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *